Uma data, uma história, uma promessa ao futuro
Era 18 de maio de 1973 quando a pequena Araceli Cabrera Crespo, de apenas oito anos de idade, desapareceu em Vitória, no Espírito Santo. Filha de uma família humilde, ela foi sequestrada, brutalmente violentada e assassinada por jovens de famílias ricas e influentes da cidade. O crime chocou o Brasil — mas o que chocou ainda mais foi o desfecho: ninguém foi condenado. O dinheiro e o poder silenciaram a Justiça.
Décadas depois, a memória de Araceli se transformou em lei. Em 2000, o Congresso Nacional instituiu o 18 de Maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Não para comemorar — mas para nunca esquecer. Para que o nome de Araceli ecoe como um alerta permanente: enquanto uma criança sofrer, todos somos responsáveis.
"Uma criança que sofre abuso não perdeu apenas a inocência. Perdeu a confiança no mundo adulto, no amor, na segurança. Roubar isso de uma criança é um dos crimes mais hediondos que existe."
— Especialistas em proteção à infânciaO que é o Maio Laranja?
O mês de maio ganhou a cor laranja como símbolo da luta pela proteção da criança e do adolescente. A campanha "Faça Bonito — Proteja Nossas Crianças e Adolescentes", lançada pelo governo federal em parceria com o UNICEF, mobiliza empresas, escolas, igrejas, prefeituras e a sociedade civil ao longo de todo o mês.
O laranja representa a esperança — uma luz viva e quente que se recusa a se apagar diante das sombras. É uma cor que grita: estamos atentos. Uma cor que diz: não olharemos para o lado.
O que caracteriza o abuso e a exploração sexual?
É fundamental que pais, professores, cuidadores e toda a sociedade saibam identificar as formas de violência. O abuso nem sempre deixa marcas visíveis — muitas vezes está escondido em comportamentos, silêncios e medos que a criança não sabe como nomear.
⚠ Exemplos de situações que configuram violência contra crianças
- Abuso sexual intrafamiliar: quando o agressor é pai, padrasto, tio, avô ou outro familiar que se aproveita da confiança e da proximidade para cometer o crime.
- Exploração sexual comercial: criança ou adolescente submetido a atos sexuais em troca de dinheiro, roupas, celular, comida ou qualquer benefício material — muitas vezes por adultos que fingem "ajudar".
- Grooming online: quando adultos constroem um relacionamento afetivo falso pelas redes sociais para manipular crianças e obter fotos, vídeos ou encontros presenciais.
- Assédio e importunação: toques indesejados, comentários sobre o corpo, exibicionismo — situações que muitas crianças não entendem como crime porque os adultos normalizam.
- Pornografia infantil: qualquer produção, compartilhamento ou armazenamento de imagens sexuais envolvendo menores é crime com pena de até 8 anos de reclusão.
- Turismo sexual: exploração de adolescentes por pessoas que viajam para determinadas regiões do país com o objetivo de praticar abusos, muitas vezes em comunidades vulneráveis.
Por que este mês importa tanto?
Porque há crianças que acordam com medo todos os dias. Porque há meninos e meninas que aprendem desde cedo que o corpo delas não lhes pertence. Porque há famílias que escolhem o silêncio para proteger o agressor — e destroem, sem perceber, o futuro de uma criança. O 18 de Maio existe para dizer, em voz alta, que esse silêncio tem um custo. E esse custo é alto demais.
Quando uma criança é abusada e ninguém a ouve, ela aprende que o mundo adulto não é seguro. Quando um adolescente é explorado sexualmente e a sociedade olha para o lado, ele aprende que não tem valor. O ciclo do abuso se perpetua no silêncio, na omissão, na cultura que culpa a vítima e protege o agressor.
Por isso, o Maio Laranja não é apenas sobre denúncia — é sobre cultura. Sobre educar filhos desde cedo sobre o próprio corpo e sobre limites. Sobre ensinar crianças que não há segredo que precise ser guardado de pais e responsáveis. Sobre criar ambientes onde a criança se sinta segura para falar.
"Proteger uma criança não é tarefa apenas do Estado. É responsabilidade de cada vizinho que ouve um choro e finge não ter escutado. De cada professor que percebe o aluno diferente e não pergunta. De cada um de nós."
— Campanha Faça Bonito / UNICEF BrasilO que você pode fazer agora?
A proteção começa com a informação. Compartilhe esta matéria. Fale com seus filhos. Observe as crianças ao seu redor. E, se suspeitar de qualquer situação de violência, denuncie imediatamente.
✓ Ações concretas que salvam vidas
- Ligue 100 (Disque Direitos Humanos) — funciona 24 horas, 7 dias por semana, é gratuito e pode ser anônimo.
- Converse com seus filhos sobre educação sexual de forma clara, respeitosa e sem tabus — criança informada é criança protegida.
- Ensine as crianças que nenhum adulto deve pedir segredo sobre toques no corpo — segredo entre adulto e criança é sinal de alerta.
- Apoie iniciativas locais de proteção à infância: CRAS, Conselho Tutelar, entidades e projetos sociais.
- Vista laranja, coloque laranja nas redes sociais — o símbolo visível muda comportamentos e gera conversas.
- Se for professor ou educador, acesse o material da campanha "Faça Bonito" no portal do Ministério da Educação.
O Brasil tem leis avançadas de proteção à infância — o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em 1990, é referência mundial. Mas leis sozinhas não protegem crianças. Quem protege são pessoas. Olhos abertos. Coragem de denunciar. Amor que não se cala.
Que o 18 de Maio de 2026 seja mais um passo nessa caminhada. Que cada criança da Bahia, do Brasil e do mundo possa crescer em segurança, em amor, em liberdade — com a certeza de que os adultos ao seu redor estão do seu lado.
Araceli merecia isso. Todas as crianças merecem.