Governo comemora saída histórica do índice da FAO, mas dados do próprio relatório e do IBGE mostram que dezenas de milhões de brasileiros seguem sem acesso pleno à alimentação — e a coincidência com o calendário eleitoral não passa despercebida.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou que o Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome. O critério técnico é claro: o relatório "Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo" (SOFI 2025) apurou que, na média entre 2022 e 2024, menos de 2,5% da população brasileira estava em situação de subnutrição grave — patamar que tira qualquer país da lista.
O anúncio virou vitrine imediata do governo Lula (PT). O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, tratou o resultado como conquista histórica, alcançada em apenas dois anos de gestão. E, tecnicamente, o índice não mente: o indicador específico de subnutrição extrema de fato caiu abaixo do limite internacional.
O problema é o que esse número não conta.
O mesmo relatório da FAO que tirou o Brasil do Mapa da Fome traz outros dados, publicados lado a lado, mas que não ganharam destaque nas notas oficiais.
50,2 mi
brasileiros (23,7% da população) não têm condições de pagar por uma alimentação saudável, segundo o SOFI 2025
7 mi
pessoas (3,4% da população) ainda vivem em insegurança alimentar grave, na mesma média 2022–2024
54,7 mi
brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar, segundo a PNAD Contínua/IBGE (2024)
Houve queda em relação a 2023, é verdade. Mas "queda" não é sinônimo de "resolvido", e o número absoluto continua sendo o de um país onde quase um quarto dos domicílios não tem certeza plena de comida na mesa.
"Sair do Mapa da Fome não é o mesmo que sair da fome."
Leitura editorial a partir dos dados do próprio relatório SOFI 2025
Mapa da fome não é mapa da fartura
Aqui está o ponto que o governo prefere não explicar em detalhe: sair do Mapa da Fome mede um recorte técnico e extremo — subnutrição calórica grave, medida em média trienal. Não mede se a família tem uma dieta nutritiva, não mede fome oculta, não mede insegurança alimentar leve ou moderada, que ainda atinge dezenas de milhões de lares brasileiros.
É possível, tecnicamente, sair do Mapa da Fome e, ao mesmo tempo, ter metade da população em algum grau de insegurança alimentar. Os dois fatos não se contradizem estatisticamente — mas contam histórias completamente diferentes, e só uma delas está estampada nos comunicados oficiais.
Análise Editorial — Bahia Realidade News
Não é acusar o governo de fraudar dado da ONU — a metodologia da FAO é internacional, auditável e não foi produzida pelo Palácio do Planalto. O que esta redação questiona é outra coisa: por que o anúncio chega embrulhado como vitória definitiva contra a fome, sem menção proporcional aos 50 milhões que ainda não conseguem comer de forma saudável e aos quase 55 milhões em algum grau de insegurança alimentar?
A resposta mais simples também costuma ser a mais desconfortável: 2026 é ano eleitoral, e "Brasil sai do Mapa da Fome" é manchete que rende palanque. "23,7% da população não pode comer bem" não rende.
Governo tem o direito de comemorar avanço real — e o índice de subnutrição grave caindo é avanço real, documentado, que merece registro. O problema não é comemorar. É maquiar a comemoração como se o problema estivesse resolvido, num ano em que cada estatística positiva vira palanque e cada estatística incômoda vira nota de rodapé.
O que fica
O Brasil pode, sim, estar oficialmente fora do Mapa da Fome. Mas para as dezenas de milhões de famílias que ainda contam centavos para decidir entre feijão e leite, entre arroz e carne, a régua da ONU não muda a realidade do fim do mês.
Enquanto o índice técnico sobe no discurso oficial, a fome invisível — a que não aparece no comunicado, mas aparece no prato vazio — segue sendo o retrato mais fiel do Brasil real.